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A competitividade e o desenvolvimento do país | por Erik Camarano

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

A competitividade e o desenvolvimento do país | por Erik Camarano

O Relatório de Competitividade Global 2010-2011 (The Global Competitiveness Report - GCR), elaborado pelo World Economic Forum (WEF), com análises de 139 países, incluindo o Brasil, foi divulgado no mês de setembro de 2010. O estudo, que apresenta o perfil econômico e social das economias pesquisadas e serve como uma importante ferramenta de benchmarking dos indicadores de competitividade de cada nação, nos trouxe resultados interessantes, que valem a reflexão.

 

A análise da competitividade – cuja seção brasileira é realizada conjuntamente pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC) e pela Fundação Dom Cabral – não se resume a aspectos econômicos, também considera o âmbito social e político apresentado pelas economias. O WEF define competitividade como o conjunto de instituições, políticas públicas e fatores de produção que determinam o nível de produtividade de um país.

 

Nesta última análise, as dez economias mais competitivas do mundo permanecem as mesmas do ano anterior, porém em posições distintas. A Suíça se mantém como o país mais competitivo do mundo. Os Estados Unidos, após perderem o primeiro lugar já em 2009, caíram mais duas colocações em 2010 (ficando em 4º lugar), superados pela Suécia (2º) e por Cingapura (3º).

 

No caso do Brasil, embora o país tenha caído duas posições no ranking mundial – de 56º para 58º –, é importante destacar que se pode observar uma tendência de melhoria no desempenho da competitividade da economia brasileira, de forma consistente, ao longo dos últimos anos. Isso aparece na média geral – nosso score de competitividade global subiu em relação a 2009. Assim, a retração no ranking deve ser relativizada e analisada no contexto geral dos fatores-chave de sucesso, do aumento da competitividade do país e da renda per capita.

 

O dinamismo recente da economia brasileira no ranking geral de competitividade reflete os notáveis avanços alcançados nas últimas duas décadas, marcadas pela estabilidade macroeconômica, abertura comercial e redução da desigualdade de renda. Estes esforços têm sido fundamentais para colocar o país num patamar mais sólido e competitivo, tornando, assim, mais favorável o desenvolvimento do setor privado. Além disso, este cenário permitiu que o Brasil reagisse com sucesso ao impacto da recente crise econômica global: enquanto o PIB recuou ligeiramente em 2009 (-0,18%), as projeções do Banco Central das últimas semanas de 2010 apontavam para um crescimento de 7,6%.

 

Dentre as sólidas vantagens competitivas do país, encontram-se o tamanho do mercado (10º lugar), a sofisticação empresarial (31º lugar) e a inovação (42º lugar). O Brasil também exibe um dos setores financeiros mais desenvolvidos e sofisticados da América Latina (50º lugar no ranking mundial), juntamente com infraestrutura razoável para os padrões regionais (classificado em 62º lugar no geral, 12 posições acima de 2009) e um relativo bom funcionamento do sistema de ensino superior (58º lugar), especialmente na sua componente de formação técnica (38º lugar).

 

Nesta edição, o relatório dedica atenção especial ao cenário pós-crise e inclui, além de uma análise profunda da competitividade dos países da União Europeia, uma seção sobre os desafios de modernização da infraestrutura na América Latina – com foco especial no Brasil e na reflexão sobre a relação entre a estabilidade macroeconômica e os efeitos estruturais dos gaps de infraestrutura sobre a nossa competitividade a longo prazo. Assim, segundo os dados do relatório de 2010, apesar dos avanços verificados nas áreas de energia e de telecomunicações, o Brasil ainda precisaria investir anualmente cerca de 5% do PIB neste segmento, para evitar que este seja o principal gargalo para o crescimento sustentado do país.

 

Apesar dos pontos fortes supracitados, o quadro de competitividade para o Brasil permanece incerto, com aspectos positivos importantes acompanhados, porém, de fragilidades e desafios que devem ser enfrentados para que o país explore integralmente seu grande potencial de crescimento sustentável e de concorrência internacional

 

Mesmo com os progressos na direção da sustentabilidade fiscal, o ambiente macroeconômico do país ainda continua a ser fator de preocupação, com taxas de poupança notavelmente baixas (15%, 101º lugar), spread bancário elevado (35,4%, 136º lugar) e alto grau de endividamento público (48% do PIB, 84º lugar). O relatório aponta ainda que os mercados de bens (114º lugar) e de trabalho (96º lugar) apresentam nítidos sinais de rigidez estrutural, que impedem uma alocação mais eficiente de recursos e, assim, tornam-se fatores preocupantes em momentos de crise, nos quais a capacidade de resposta rápida é fator diferencial para a determinação do “tempo de saída” do ponto de maior retração do nível de atividade econômica.

 

Além disso, a qualidade das instituições continua mal-avaliada, em 93º lugar, com limitada confiança nos políticos e no respeito ao estado de direito. Por último, mas não menos importante, o relatório de competitividade mostra que ainda são necessários foco e esforços para melhorar a qualidade do sistema educacional em todos os níveis (com classificação em 106º lugar para o ensino primário e em 97º lugar para a qualidade do ensino superior). Ou seja, o Brasil cumpriu a primeira etapa no desafio da educação, que consiste na inclusão dos alunos nas salas de aula – com a devida correspondência idade-série –, e agora precisa enfrentar a segunda etapa deste processo, que é a da melhoria do desempenho estudantil.

 

O desafio do crescimento econômico sustentável da renda per capita brasileira exige um processo consistente de investimentos nesses pilares. E aliar conhecimento, tecnologia, inovação e provimento de serviços especializados é essencial. Para garantir o sucesso do país nos mais variados setores, é preciso ter capacidade para buscar oportunidades no mercado externo e atrair investimentos capazes de manter o ritmo de desenvolvimento.

 

O peso excessivo da carga tributária, conjugado com a complexa regulamentação na área fiscal, e um sistema trabalhista engessado e atrasado são assuntos que devem estar em nossa agenda de desenvolvimento. Assim, enquanto se discutem avanços na agenda da reforma tributária – complexa por natureza, recheada de conflitos federativos –, poderíamos realizar mudanças pontuais que teriam um impacto significativo, como, por exemplo, ampliação dos limites de enquadramento e inclusão de mais atividades no Simples Nacional, bem como isenção das empresas enquadradas no Simples do pagamento da compensação pelo diferencial de ICMS nas compras interestaduais. Essa ação teria um impacto positivo sobre as empresas de micro e pequeno porte e fortaleceria ainda mais a economia interna do país, com baixo impacto – se houver – do ponto de vista de redução da arrecadação total.

 

Podemos dizer, com segurança, que o país continua vivendo um processo gradual de melhoria da competitividade, embora ainda haja muito por fazer. A agenda de avanços é bastante complexa. Precisamos concentrar nossas atenções, com senso de urgência, nos pilares de infraestrutura (principalmente na área de transportes), melhoria do desempenho escolar (em todos os níveis) e modernização institucional necessária para aumentar a flexibilidade dos mercados de bens e de trabalho. Sem isso, corremos o risco de celebrar, antecipadamente, uma euforia pelo bom desempenho no curto prazo e ter de amargar, depois, a ressaca de retornar a taxas medíocres de crescimento econômico. 

 

Erik Camarano é economista formado pela USP e doutor pela UFRGS. Antes de assumir como Secretário Executivo das Câmaras Setoriais do Rio Grande do Sul, foi economista-chefe da Agenda 2020 - movimento para o desenvolvimento de longo prazo, conduzido conjuntamente pelo setor privado, pelo setor público e por ONGs do estado. Foi também assessor econômico da FIERGS e diretor de Pesquisa e Informação do Pólo RS - Agência de Desenvolvimento. De 2001 a 2005 viveu e trabalhou na Noruega. Atualmente é presidente do Movimento Brasil Competitivo (MBC).

 

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publicado em 11/02/2011