Sábado, 19 de Maio de 2012
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“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.”
Um primor de brasilidade, Gonçalves Dias canta do exílio as virtudes de nossa terra, a viçosa natureza brasileira. Mas onde estão as virtudes de nosso povo?
José de Alencar, outro gigante brasileiro comenta: “Gonçalves Dias é o poeta nacional por excelência: ninguém lhe disputa na opulência da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brasileira e dos seus costumes selvagens.” Costumes selvagens?
Por muito tempo, os brasileiros foram vistos por outras nações como subdesenvolvidos, em alguns casos, inclusive, com curiosidade, como latino-americanos étnicos, folclóricos, rudes, divertidos ou corruptos.
Mas, por que se criou essa imagem estereotipada do povo brasileiro? Por que as ruas lá fora são limpas e aqui são sujas? Por que lá fora aguardam em filas e aqui nos exasperamos para dar um jeitinho? Afinal, estamos melhorando o nosso PIB, a nossa renda per capita, a nossa economia está crescendo e o nosso país passa a ser visto com as melhores perspectivas. Mas precisamos atentar para seguirmos nossa transformação de comportamento e, principalmente, de mentalidade.
Civilização não é o PIB, não é o dinheiro, não é o poder! Anos atrás estive em Porto Alegre e observei uma favela. Havia flores nas janelas, as paredes eram caiadas e as calçadas limpas. E isso difere do conceito comumente exposto ou da imagem que se tem de outros locais semelhantes no Brasil. Mais de uma vez, na Europa, perguntei a um motorista de táxi sobre certa árvore na praça ou aquele pássaro na árvore e fui agraciado com uma explicação da espécie, um poema, uma referência...
Civilização não é a renda, a empresa, nem o carro. Não é a grife da roupa, nem da bolsa. Civilização também nada tem a ver com cor, raça ou etnia. Podemos ter toda riqueza do mundo, portanto, e continuar subdesenvolvidos se ainda seguirmos nos colocando de forma subserviente, ou se não soubermos qual é o nosso valor e mérito.
A questão passa por outros pilares. Um exemplo: uma cidade como São Paulo, com quase 20 milhões de pessoas, que em alguns casos está no limite do senso de civilização. Não é por falta de dinheiro, mas em parte por falta de vontade política. Muitos vereadores têm suas áreas de influência para cobrar dos policiais, das empresas de ônibus, do sindicato dos taxistas, mas nada fazem para o povo – senão representar votos e visibilidade. Todos temos a perder, mas aqueles que conquistaram mais são obrigados a aumentar os muros de suas casas, andar de helicóptero e com seguranças. Mesmo se movendo para exigir qualidade de vida para a população e dignidade para o ser humano, nem sempre conseguem ser escutados.
Outro exemplo: 1989, para proteger os mananciais, a prefeita recém-eleita proibiu qualquer construção à beira das represas de São Paulo. Conheci alguns sítios de lazer, limpos e bonitos às margens da represa. Foram expulsos. Poucas semanas depois notícias informavam sobre loteamentos ilegais nascendo às margens da mesma represa e nada foi feito. Resultado: a qualidade de vida caiu. Em vez de cuidar da nossa cidade, incentivam-se o descuido e o abandono. Demagogia e populismo não são atos civilizados.
A riqueza de uma nação não está nos cofres do governo, nem no bolso dos cidadãos, não é o celular, nem o iPad de aparência. Isso é coisa para os realmente pobres... de espírito. É a riqueza espiritual de cada um que faz uma nação civilizada. É o espírito com que cada um encara a vida e a sociedade que faz o bem-estar de todos. É a vontade de aprender, a gentileza, o valor dado a si e aos outros, o respeito e o cuidado com o que nos é querido. Adoramos nosso Brasil, então por que não seguir transformando a realidade?
Um povo, rico ou pobre, será civilizado tanto quanto for o respeito, a dignidade e cultura de cada um. A arrogância das aparências apenas camufla um humano rude e primitivo. Claro que estamos falando genericamente, uma média ou uma tendência geral, mas isto faz muita diferença. Um povo civilizado tem mais condições de pensar, de questionar, de ser algo mais que apenas impulsos emocionais.
Diz-se que cultura vem de berço, mas não necessariamente e nem sempre. Cultura é conhecer a própria história e a do mundo, conhecer outras línguas, outros mundos, as artes, o lado simbólico do ser humano. Civilizar é um processo que toma gerações e o esforço pode ser perdido em uma única vida descuidada.
Uma nação civilizada investe mais tempo, afeto e recursos nas pessoas. Um povo culto ensina mais as suas crianças, investe mais no ser humano e é isto que empurra a nação para a civilização. Acredita menos em propaganda eleitoral e é menos propenso ao populismo e à corrupção. Por ser mais autônomo, depende menos dos políticos e do governo. Cuida mais do indivíduo e do ambiente ao seu redor por ser mais exigente. Um civilizado não vive abandonado, não desperdiça recursos ou alimentos, também não despreza os menos privilegiados, mas ensina-os. Os mais fortes cuidam dos mais fracos, pois todos são importantes.
Nada adianta termos muitas e acessíveis universidades e a qualidade do ensino ainda deixar a desejar. Precisamos de ensino básico de qualidade e ótimas escolas técnicas para a grande maioria que precisa sobreviver. Ensino de qualidade não é feito de ideologia, políticas públicas ou campanhas pelo desarmamento ou contra o fumo. Ensino básico de qualidade é gramatica, lógica e retórica, ou, como chamamos hoje, português, matemática e expressão artística ou literária. São os instrumentos básicos para possibilitar ao aluno pensar e comunicar o que pensa. O ensino precisa despertar a curiosidade, instigar o aluno a questionar não o professor, mas o mundo. Não se pode doutrinar uma criança e esperar que, quando adulta, pense e decida por si. E precisamos de universidades de altíssimo nível para aqueles que buscam o conhecimento acadêmico e especialização.
O desenvolvimento econômico do Brasil dos últimos anos gerou uma grande necessidade de profissionais qualificados e de alto nível. Estamos começando a ver o que foi esquecido com a intensa ideologização do país se agregando à arraigada complacência brasileira. Infelizmente, não temos profissionais suficientes, mas já temos pessoas cada vez mais conscientes da situação.
Valorosas iniciativas da sociedade estão surgindo na direção de tornarmos o Brasil ainda maior, e cabe a cada um de nós buscar o melhor para nossos filhos. Não vamos nos contentar com medidas ilusórias, propaganda ideológica ou “conversa mole” do passado, pois queremos brasileiros que pensem, que questionem, que respeitem, que estudem, que criem e construam.
Podemos e estamos a melhorar!
Jorge Feffer é formado em administração de empresas pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Foi assistente de gabinete da Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Iniciou suas atividades no grupo econômico Suzano, em 1979, como analista de organização e métodos. Foi superintendente da Agaprint Informática e Agaprint Embalagens. Atualmente, ocupa os cargos de membro do Conselho de Administração e do Comitê de Sustentabilidade e Estratégia da Suzano Papel e Celulose, diretor da Suzano Holding,oldingHolding diretor da IPLF Holding e diretor da Nemonorte Imóveis e Participações, além de membro do Conselho do Instituto Ecofuturo. Tem se dedicado a estudos em filosofia política e econômica, e em história e civilizações.