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O líder sênior e o sentido do trabalho | Por Beatriz de Pellegrini

Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2011

O líder sênior e o sentido do trabalho | Por Beatriz de Pellegrini

O aumento da expectativa de vida do ser humano vem sendo acompanhado de estudos e pesquisas sobre os seus fatores determinantes e as suas conseqüências do ponto de vista econômico e social. Há vasta literatura sobre o tema que é sempre acrescido de novas estatísticas, pesquisas e resultados correspondentes a tais investigações. Em decorrência, vê-se aumentar o contingente de pessoas que permanece trabalhando após completar o que pode ser denominado tempo regulamentar para permanecer na atividade.

 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, relativos ao censo de 2010, houve um crescimento da participação da população com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991, passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 2010, em relação à população total. Igualmente, número de pessoas com mais de 65 anos que permanecem em atividade no Brasil, cresceu 12% em relação à população economicamente ativa no mesmo período.

 

No grupo dos que permanecem trabalhando, constata-se a existência de lideranças, cuja vida laboral lhes proporcionou uma posição econômica estável, porém mantêm-se ativos frente às organizações que lideram. Portanto, constituem um grupo especial, que se diferencia dos demais, porque é formado por pessoas que já atingiram a estabilidade financeira e continuam trabalhando movidos pela satisfação pessoal de servir.

 

Afirmar que o trabalho é intrínseco ao exercício da liderança é de fácil compreensão. Entretanto, quando se trata do sentido do trabalho entre líderes que já possuem uma expectativa financeira realizada, mas mantém-se em atividade, remete-se ao questionamento de qual é o verdadeiro sentido do trabalho para líder sob a perspectiva ontológica, isto é, enquanto dimensão humana, enquanto ser, como se realiza no trabalho através do exercício da liderança.

 

O trabalho na concepção ontológica

 

Diversos campos do conhecimento, a partir de diferentes vertentes epistemológicas, demonstram como o trabalho ocupa um lugar central da vida do ser humano.

 

Já nos estudos da formação do homem grego, encontra-se a descrição do “valor do trabalho”, na obra de Hesíodo, “O Trabalho e os Dias”. O sentido do trabalho, como ordem natural da existência e dela recebendo as leis que o regem, é celebrado como o único caminho, ainda que difícil, para alcançar a Arete (virtude). O conceito envolve, simultaneamente, a habilidade pessoal e o que dela deriva – bem-estar, êxito, consideração.

 

O trabalho faz parte da formação do ser humano e, através dele o indivíduo pode resgatar o sentido da vida. É pelo trabalho que o homem, como ser social, passa da condição de sua origem natural baseada nos instintos para uma produção e reprodução como gênero humano.

 

Por meio do trabalho e da contínua realização de necessidades, a consciência humana deixa de ser mera adaptação ao meio ambiente; faz a mediação entre a esfera das necessidades e a sua realização. Como resultado tem-se o comportamento consciente que é diverso da mera espontaneidade do instinto biológico o qual, embora se distancie (de forma relativa) da natureza imediata, não anula a sua origem ontológica em relação ao trabalho consciente. O trabalho, portanto, está ontologicamente voltado para o processo de humanização do homem.

 

Pelo trabalho, o homem, numa cadeia temporal contínua, busca sempre novas alternativas o que, simultaneamente, lhe proporciona liberdade, pois, ao transformar a natureza, se autotransforma. O indivíduo busca atingir um controle de si mesmo, base para a conquista da liberdade. Assim, o trabalho pode ser considerado como modelo à liberdade humana.

 

O trabalho é o elemento mediador entre as necessidades e a sua realização. Nesta relação metabólica (do ser social e a natureza) desenvolvem-se inter-relações com outros seres sociais com vistas à produção de valores de uso, tem-se a práxis social interativa. O sujeito é inserido nas relações sociais. As decisões individuais ocorrem dentro das relações sociais e acionam outras tantas relações dos mais variados tipos. Essa constatação ontológica remete à figura do líder, enquanto inserido no seu contexto social e parte de uma rede de relações na sua área de referência e atuação.

 

Líder e liderança

 

O tema “liderança” é exaustivamente abordado na literatura existente em diversas áreas, especialmente naquelas da Administração e afins. Entretanto, sobre o sentido do trabalho para o líder que permanece em atividade após o tempo regulamentar de aposentadoria, objeto deste estudo, não foi localizado uma literatura específica.

 

Conforme indicado por Meneghetti (2008), a palavra líder, originária de leading, encontrada pela primeira vez na língua viking, indicava um homem que tinha um projeto a cumprir e estimulava também os outros a realizá-lo. O conceito apresenta duas características: capacidade de realizar (capacidade de ação) e capacidade de coordenar um grupo a um único escopo (capacidade de socialização).

 

Através do processo de liderança, indivíduos, com suas ações, facilitam o movimento de um grupo de pessoas na realização de metas comuns ou compartilhadas. A liderança, como atividade, possibilita a obtenção de resultados que transcendem a esfera individual e que demandam a ação coletiva.

 

O líder é o indivíduo que dirige, representa um grupo, em qualquer contexto, seja econômico, político, social ou ideológico. É capaz de dar unidade de ação com uma multiplicidade de exigências, capacidades e meios. O conceito aplica-se, portanto, a qualquer pessoa que demonstre habilidade de ter sucesso como operador econômico, político ou social. Nesse sentido, elimina-se a tendência de que somente grandes personalidades sejam reconhecidas como líderes. Aplica-se a qualquer empreendedor de pequenas empresas, construtores, mestres, jornalistas eficientes, artistas com sucesso autônomo, estilistas, cabeleireiros, entre outros.

 

Entende-se aqui que o comando implica uma capacidade diferenciada. O líder é o indivíduo que se autorrealiza conduzindo outros seres sociais no desempenho do seu trabalho. Ele tem a capacidade de visualizar, selecionar e alocar os recursos adequados (humanos e materiais) que propiciem a solução otimal para a realização econômica, política e social do seu contexto de atuação.

 

Sabe individuar a proporção de como se movem as relações da vida e aplicar a decisão justa, conforme cada situação. O líder deve ser capaz de ação qualitativa, o que resulta em aumento territorial, de inteligência e de ser. A qualidade aqui é entendida não apenas como um instrumento de marketing, mas, essencialmente, como uma mudança psicocultural.

 

O trabalho para o líder assume um sentido diferenciado, na medida em que, por sua inteligência, sabe harmonizar as relações entre todos para a obtenção do nível máximo de produção de valores e coisas; a assertiva de suas decisões garante a solução vencedora e propiciam trabalho para todos.         

 

O sentido do trabalho na visão dos líderes

 

Em pesquisa recente realizada com dirigentes empresariais do sul do Brasil, foi investigado o sentido do trabalho para o líder que, em condições de manter-se na inatividade permanece à frente dos seus empreendimentos. Especificamente, o estudo descreve que sentido tem o trabalho hoje para esses líderes e como o interpretam ao longo de sua vida profissional.

 

Os resultados da pesquisa apontam características comuns ao grupo pesquisado. Todos iniciaram suas atividades laborativas ainda muito jovens, tendo realizado suas primeiras experiências em empreendimentos da iniciativa privada, ainda na família.

 

Os relatos mostram que o trabalho não tinha a conotação de sofrimento ou castigo, pois o expressam como um fato normal do seu cotidiano. Os diferentes depoimentos revelam um interesse contínuo e uma preocupação com o seu bom desempenho, aliado a uma vigilante atenção ao crescimento. Adiciona-se então, o sentido de construção de vida através do trabalho, pois, como foi sendo revelado, a cada nova conquista, outras iam se interpondo com premência de realização.

 

Na descrição do que poderia mudar no sentido do trabalho ao longo da vida profissional, percebe-se que, num primeiro momento representava a satisfação de necessidades imediatas. Entretanto, na proporção em que estas eram atendidas, ao mesmo tempo, desempenhavam o papel de propulsoras para novos desafios, sempre focados em seus objetivos.

 

A cada relato, pode-se constatar a importância que o trabalho exerce na formação do ser humano. As experiências vivenciadas permitiram a realização gradativa de objetivos empreendedores onde o exercício da liderança se fazia presente.

 

A transitoriedade do trabalho é percebida na descrição dos entrevistados para os quais, cada etapa vencida representava um impulso na direção de novas alternativas. Isso permitia um gradativo controle sobre si mesmo e consequente liberdade na conquista de espaços de liderança em termos econômicos e sociais.

 

Fato marcante refere-se à alegria e ao entusiasmo com que falam sobre o sentido do trabalho. Todos os entrevistados manifestaram-se dessa forma ao usarem expressões como sendo o trabalho um prazer, uma alegria, uma diversão, o que chama a atenção para a necessidade da revisão no paradigma do trabalho, enquanto socialmente considerado como algo penoso, um sacrifício ou castigo.

 

A atividade de liderança é uma constante ao longo das experiências profissionais dos entrevistados, que manifestam um profundo amor pelo trabalho que realizam, demonstrando ser o seu exercício uma forma de se realizarem. Portanto, a liderança é um serviço através do qual o líder realiza o seu potencial. Assim, do seu trabalho, ao permanecer em atividade, toda a sociedade se beneficia, pois tem a capacidade de prover para muitos no seu âmbito de atuação, quer seja ele político, econômico ou social.

 

Os resultados positivos da ação desses líderes direcionam ainda para outras razões de futuras investigações. A importância do estímulo para que outros tantos líderes que, com experiência no exercício de liderança, sejam estimulados a permanecerem em atividade, como forma de benefício a si mesmos, num primeiro momento, e para a sociedade que se beneficia diretamente de suas ações. O incentivo aos jovens que, ao lado dessas lideranças, valorizando suas experiências e vivências, sejam estimulados a darem o verdadeiro sentido ao trabalho, dispensando tempo para uma pertinente preparação em cada etapa da vida profissional, para que possam, no tempo adequado, estarem preparados para o exercício da liderança. 

 

Beatriz de Pellegrini - Possui graduação em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Santa Maria, especialização pela mesma Universidade, mestrado em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, MBA em Gestão de Negócios e Intuição pela Antonio Meneghetti Faculdade. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração Financeira, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino de administração, administração e gestão, estudos organizacionais e gestão empresarial. Coordenadora dos cursos de MBA na Antonio Meneghetti Faculdade - AMF.

 

 

 

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publicado em 10/12/2011