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Tempo de semear; tempo de colher | por Pedro S. Malan

Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Tempo de semear; tempo de colher | por Pedro S. Malan

"Em todas as coisas, e especialmente nas mais difíceis, não devemos esperar semear e colher ao mesmo tempo; é necessária uma lenta preparação para que elas amadureçam gradativamente” (Bacon).

Alguém haverá de dizer: isso é óbvio – e bíblico. Mas o óbvio me veio à mente após entrevista do presidente Lula em que declara estar “trabalhando com a idéia de uma moeda única e de um banco central para os países do Mercosul (ampliado) nos próximos quatro anos”. Em outra oportunidade, falou: “a gente tem que sonhar em ter uma moeda única, um banco único”. Mas a instigante noção de “trabalhar com uma idéia” não deveria ser sinônimo de “sonhar com uma idéia”.

 

Nosso presidente parece concordar com a formulação de Fernando Pessoa (1926): “O primeiro passo para uma regeneração, econômica ou outra [do País], é criarmos um estado de espírito de confiança... nessa regeneração. Não se diga que ‘os fatos’ provam o contrário... haja ou não fatos... tanto podemos crer que nos regeneraremos, como crer o contrário. Se temos, pois, a liberdade de escolha, por que não escolher a atitude mental que nos é mais favorável, em vez daquela que nos é menos?”.

 

Pessoa fala em escolher a “atitude mental” correta como “primeiro passo”. Mas o que importa no mundo real tem a ver com resultados efetivos. Esses, segundo o poeta, dependem de três coisas: “saber trabalhar” (que é mais que trabalho); “descobrir oportunidades” (mais que aproveitar as atuais) e “criar relações tanto na vida material quanto na mental”. O resto é sorte, diz Pessoa. Algo que os antigos chamavam “fortuna” (destino, acaso) – e que tem sorrido amplamente ao nosso presidente. Em outras palavras, trabalhar com uma idéia ou sonhar com outra não é, em si, nada criticável. Exceto quando o anúncio de uma idéia é visto como garantia de realização no mundo real.

Nosso presidente havia, no ano passado, trabalhado com a idéia, da qual estava convicto, de que o século XXI seria o século do Brasil. Mais tarde, disse “não ter dúvida de que o século XXI será o século da América Latina”. Podemos e devemos torcer e trabalhar para que esteja certo. Mas o fato é que o resto do mundo, hoje, acha que o século XXI será marcado pela emergência econômica e política não tanto da América Latina – mas da Ásia.

 

Podemos e devemos tentar mudar essa percepção, mas não será fácil. Muito ajudaria um melhor entendimento da integração européia em comércio, investimento, infra-estrutura, regulação e valores compartilhados. Foram necessárias dezenas de anos para que se chegasse ao Euro. Mais de meio século em busca de ações coerentes, persistência, propósito e visão para transformar idéia e sonho em realidade - no que ainda é uma obra em aberto.

 

Nesse contexto, e apenas a título de ilustração, espero que possamos voltar, quando as condições regionais permitirem, aos avanços obtidos, conjuntamente, pelos seis países (os quatro do Mercosul original mais Chile e Bolívia) há mais de seis anos. Após meses de discussões técnicas entre ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais e suas equipes, os presidentes desses países adotaram formalmente em reunião do Conselho do Mercosul a decisão de promover maior convergência macroeconômica por meio da utilização de objetivos compartilhados, quantificados e monitoráveis.

 

Alguns exemplos: convergência da relação dívida/PIB para não mais que 40% em 2010 (estávamos em 1999/2000 com vários países acima desse nível). Os déficits fiscais nominais deveriam ter como referência o porcentual não superior a 3% do PIB. A taxa anual de inflação deveria convergir para um número inferior a 5%. Que os governos da região possam recuperar o espírito de colaboração e o clima construtivo daquele momento. Sem avançar nesse se  ido, é muito difícil “trabalhar com a idéia” de uma moeda única. Vale citar um extraordinário ex-presidente:

 

“A lição que temos para aprender é esta: os problemas não se resolvem com meras proclamações, nem com voluntarismos. Resolvem-se com estudo, trabalho metódico, eficiência, com solidariedade, com coesão econômica e social” (Jorge Sampaio, ex-presidente de Portugal).

 

As citações de Francis Bacon e de Jorge Sampaio expressam a voz da razão. E a razão sempre acaba por encontrar alguma audiência que, sob certas condições, pode se transformar em uma imensa minoria a ser levada em conta.  

 

Pedro S. Malan, economista, presidente do Conselho de Administração do Unibanco, foi ministro da Fazenda no governo FHC

publicado em 29/01/2010

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