Domingo, 05 de Fevereiro de 2012

Cadastrar


Nome*:



Senha*:

Confirme a senha*:

* Campos Obrigatórios

X

Cadastro efetuado com sucesso.

Aguarde! Uma confirmação será enviada para o e-mail cadastrado.

Obrigado!

Atenção! Preencha o campo abaixo com o email cadastrado para solicitar uma nova senha.




X

Aguarde! Dentro de algumas horas uma nova senha será enviada para seu email.

Obrigado!

Últimos Artigos

A economia no divã | por Érico Azevedo

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2010

A economia no divã | por Érico Azevedo

A ciência econômica corrente parece não conseguir fechar suas contas com a vida. A recente crise econômica norte-americana, que teve reflexos em várias partes do globo e para a qual os economistas não conseguem (ou não sabem) dar um quadro explicativo completo, bem como a “grande crise” de 1929 testemunham esse fato.

 

No interior da pesquisa econômica, muitos consideram restritivas as clássicas premissas de um homo economicus motivado por seu egoísmo e capaz de escolhas racionais. A pesquisa econômica, de algumas décadas para cá, vem se desenvolvendo em novas direções, sobretudo na fronteira com a psicologia e com a neurologia. No vácuo deixado pela economia clássica, criam-se novas ciências como a “economia comportamental e experimental”, mas a bola da vez nos jornais e revistas especializados parece ser a “neuroeconomia”, cujo apelo ao cérebro atrai gente interessada de diversas partes do mundo. Psicólogos, neurólogos, economistas, marketeiros, todos parecem apontar a uma única direção para compreender a economia: o homem.

 

O prêmio Nobel de economia em 2002, por exemplo, foi concedido ao psicólogo PhD. Daniel Kahneman, que trabalhou por vários anos com o economista PhD. Vernon Smith no desenvolvimento de modelos que consideram a limitada racionalidade do homem ao tomar suas decisões econômicas. Do lado da neurologia, testes de ressonância magnética e tomografias com emissão de pósitrons são realizados em sofisticados laboratórios médicos, como o Centro de Neuroimagem, em Londres. Vale tudo para observar como o cérebro humano reage às diversas situações da vida econômica.

 

As ciências parecem estar tocando os próprios limites e caminham na direção da psicologia: a economia, que parecia até então uma ciência exata, depende de variáveis psicológicas. Partindo do comportamento dos agentes econômicos, ou até mesmo de fenômenos cerebrais, quer-se compreender a lei de evolução da economia, modelar as tendências de consumo e investimento. É acima de tudo um apelo estatístico, e não tanto psicológico. A estatística indica o fim de muitos comportamentos, mas não pode explicar nem indicar o futuro. Portanto, estamos vivendo hoje um reforço na direção da psicologia. Na Europa, por exemplo, é comum a empresários e executivos irem à psicoterapia para compreender a economia, para obterem suporte à tomada de decisões econômicas. Na Universidade de Gênova e de Milão, as grades curriculares já incluem disciplinas sobre finanças comportamentais.

 

Todas essas tendências procuram responder à pergunta: “Qual economia podemos prever analisando o homem?”.O problema não é nada elementar e surgem diversas questões:

 

1. Do ponto de vista da ciência econômica: é suficiente admitir a crítica à premissa do homo economicus? A economia encontra realmente o seu fundamento científico simplesmente acusando esse limite da racionalidade humana? Seremos então finalmente capazes de explicar e prever as crises econômicas do futuro?

 

2. Do ponto de vista da psicologia: ela é realmente capaz de explicar a causa dessa irracionalidade? Seria um aspecto “tipicamente humano”, insolúvel? O homem pode ser exato ao ponto do próprio sucesso econômico?

 

3. Do ponto de vista do mercado, do marketing, qual o ganho, quais implicações temos em saber, por exemplo, que uma decisão de compra ou investimento “acende a região límbica do cérebro”, que se trata de uma decisão “instintiva”? O que muda na prática de nossas ações mercadológicas? O que dizer de nossas intervenções criativas que mudam a fisionomia do mercado? Há espaço para algo como a “criatividade” na neuroeconomia?

 

4. Finalmente, do ponto de vista do ser humano, do operador econômico, do empresário, do manager, daquele que trabalha, consome, investe, em suma, que toma decisões com impacto econômico, o que essas novas ciências têm a dizer sobre o sucesso ou insucesso de suas quotidianas decisões? E mais, o que têm a dizer sobre o sentido último de suas ações econômicas, sobre a motivação última que nos move quotidianamente na condução de nossas “vidas econômicas”?

 

Vejamos as hipóteses dos teóricos dessas novas correntes de pensamento.

 

Economia comportamental

 

A essência da abordagem dos críticos da premissa do homo economicus é modelar o comportamento não-racional do homem por meio de algumas hipóteses. A premiada teoria da racionalidade limitada de D. Kahneman e A. Tversky é um excelente exemplo. Ela propõe novos modelos para compreender as decisões econômicas segundo algumas situações nas quais as premissas clássicas do  homo economicus não se verificam experimentalmente. Essas situações são praticamente três: 1º) a influência de heurísticas sobre os nossos juízos; 2º) as escolhas sob condições de risco; e 3º) efeitos de enquadramento ou “framing effects”. Kahneman e Tversky observaram que ao elaborar nossos juízos, utilizamos “atalhos” (heurísticas), os quais são muitas vezes sistemática e inconscientemente desviantes. Eles definem intuições como “pensamentos que vêm à mente de maneira rápida e sem muita reflexão”. A intuição ocuparia uma posição intermediária na nossa história evolutiva, entre as operações automáticas da percepção e as operações voluntárias da razão, e por isso não se verificam os “erros da intuição”. A figura 1 resume as distinções propostas por pesquisadores da psicologia cognitiva:

 

 

O sistema racional teria também a função de monitorar a qualidade de nossos pensamentos e comportamentos expressos, o que ocorreria de modo “leve”, visto que expressamos muitos juízos intuitivos, entre os quais aqueles “equivocados”.

 

Para compreender o conceito cognitivista de “intuição”, reproduzimos aqui um teste aplicado em um de seus estudos. “Uma raquete e uma bola custam 11 reais no total. A raquete custa 1 real a mais do que a bola. Quanto custa a bola?”. Praticamente todos respondem inicialmente “10 reais”, porque a soma total se subdivide perfeitamente em 10 e 1, e 10 reais parece ser a resposta correta. Estudantes de diversas importantes universidades americanas deram essa resposta errada, tendo, portanto, dado uma resposta sem verificá-la. Também pessoas que estão habituadas a pensar com esforço e em geral não se satisfazem com uma primeira resposta responderam assim.

 

No que se refere às “decisões sob condições de risco”, elas apresentariam diversos efeitos inconsistentes com as teorias clássicas. Em particular, as pessoas menosprezam os resultados apenas prováveis em relação àqueles mais seguros. Essa tendência foi chamada de “efeito certeza” e contribui à aversão ao risco, de modo que as pessoas diante de um “investimento seguro” e um “investimento com algum risco” escolhem “estatisticamente” pelo “investimento seguro”.

 

Por fim, temos um outro problema potencial que surge quando a percepção das alternativas importa na decisão. Este problema é conhecido em economia como o problema de enquadramento (framing). Vejamos um exemplo proposto por Kahneman e Tversky:  Por causa de um problema de estoque, o cliente deve ir à outra loja, porém o vendedor concede um desconto de R$ 5,00 em um dos produtos adquiridos, como compensação. É importante saber sobre qual produto o desconto é aplicado? Resulta que a fração que responde que iria à outra filial é maior se o desconto fosse dado ao produto mais caro. É assim ainda que o inconveniente de ir à outra loja seja o mesmo. De fato, diante dessa situação, a resposta “racional” seria a indiferença. Os  framing effects podem ser também assim enunciados: “o quanto as nossas variações de percepção de um mesmo problema mudam as nossas decisões?”, ou ainda, “é realmente possível falar de um mesmo problema?”.


Neuroeconomia

 

A hipótese central da neuroeconomia é que devemos compreender os processos químicos cerebrais envolvidos em nossas decisões econômicas. Conhecendo a nossa “química cerebral”, poderíamos nos antecipar e interferir por meio de fármacos específicos, que atuariam para corrigir posições econômicas equivocadas, falências, ou ainda, também poderíamos direcionar nossos investimentos de marketing para influenciar diretamente determinadas regiões do cérebro, as quais levariam o consumidor a escolher as nossas marcas, como prevê Martin Lindstrom, um dos gurus do neuromarketing que trabalha para diversas corporações globais. É uma analogia físico-química ao modelo da racionalidade limitada, onde o conhecimento farmacológico atuaria para direcionar, e eventualmente corrigir, nossas ações econômicas. Um exemplo futurista: “um sujeito, não sabendo qual investimento realizar, toma uma pílula contendo uma substância que interfere em seus processos de neurotransmissão na região do córtex frontal e, por hipótese, isto o tornaria capaz de tomar uma decisão econômica clara e distinta, ao estilo do clássico homo economicus”. Outro exemplo: “um empresário comete um grave erro de estratégia levando sua empresa praticamente à falência”. A neuroeconomia poderia explicar o fato atribuindo a causa a uma deficiência de um determinado tipo de neurotransmissor.

 

Exageros à parte, considerando apenas o enorme apelo de mercado implícito nessas considerações, sem dúvida poderíamos recomendar a compra das ações do setor farmacêutico!Ocorre que o problema não é tão simples, visto que, não obstante as promessas, a neurociência está apenas engatinhando, tentando compreender problemas como a depressão e a neurose. Do ponto de vista de sua fundamentação científica, ainda deve superar o velho problema do “ovo e da galinha”: o processo químico cerebral determina o nosso comportamento ou é uma reação química interna que corresponde a um processo psíquico? Ou ainda,  o processo químico é a “causa” daquela decisão econômica ou é apenas a “base fisiológica” concomitante àquela decisão? Os neurocientistas mais ortodoxos irão rejeitar qualquer hipótese de uma “psique” ou “mente”, reduzindo tudo efetivamente aos processos químicos. O problema dessa hipótese radical, como de resto é o problema de todo o positivismo fisicalista, é que ao aceitar que o homem é “pura química, pura biologia, pura física”, resulta o absurdo que nenhum conhecimento científico é possível.

 

Se tudo o que eu conheço são minhas próprias representações, são fruto apenas de meus próprios processos químico-físicos, cada um conclui o que quiser sobre qualquer coisa e nos vemos diante de um total relativismo, ou pior ainda, caímos no ceticismo. De fato, essa foi a conclusão paradoxal à qual o filósofo inglês David Hume já havia chegado nos primórdios do empirismo inglês no século XVIII, provocando em seguida uma profunda influência em Kant. Curiosamente, o nosso percurso iniciou com a economia, passou para a psicologia para desembocar num problema filosófico!

 

A crise das ciências  e a Ontopsicologia

 

A resposta a todas essas questões paradoxais nos remete a uma crise das ciências, que não é apenas a crise da economia, mas é uma crise que se ouve desde o século passado, para a qual o grande filósofo Edmund Husserl já apontava em 1935 ao perguntar: “Existe verdadeiramente uma crise das ciências, não obstante os seus contínuos sucessos?”. Ele vai além e afirma em uma passagem dramática, às vésperas da 2ª Guerra Mundial:

 

“Na miséria da nossa vida – ouve-se dizer – esta ciência não tem nada a nos dizer. Ela exclui por seu próprio princípio aqueles problemas que são os mais pungentes para o homem, o qual, nos nossos tempos atormentados, sente-se à mercê do destino; os problemas do sentido ou não-sentido da existência humana em seu todo. Estes problemas, em sua generalidade e em sua necessidade, não exigem talvez, para todos os homens, também considerações gerais e uma solução racionalmente fundada? Em definitiva, eles concernem ao homem em seu comportamento diante do mundo circunstante humano e extra-humano, o homem que deve livremente  escolher, o homem que é livre para plasmar racionalmente a si mesmo e o mundo que o circunda. O que tem a dizer esta ciência sobre a razão e sobre a não-razão, o que tem a dizer sobre nós homens enquanto sujeitos desta liberdade? Obviamente, a mera ciência de fatos não tem nada a nos dizer a este propósito: ela abstrai exatamente de qualquer sujeito.”

 

Ou seja, constata-se que o problema da economia é apenas um aspecto de um problema mais amplo, que gira há séculos com o nome de “problema crítico do conhecimento”. Se a inteligência humana não resolve este problema, deve aceitar a derrota existencial; não apenas a científica, não apenas a econômica, não apenas a médica.

 

Segundo A. Meneghetti, fundador da Ontopsicologia,  o problema da ciência deriva do primário problema de um homem que se constata cindido em si mesmo, com a realidade de uma razão separada da sua realidade substancial. O homem é de um modo e se pensa de outro. Para ele é claro, portanto, que se restituímos ao homem a sua exata consciência, a sua capacidade de refletir o quanto existe e opera aqui e agora, restituímos a ele um instrumento racional exato para a tomada de decisões: recupera-se a exatidão da própria intuição, distinguindo-a de tantas informações sistêmicas desviantes. Se, por outro lado, aceitamos que isso não é possível, ao mesmo tempo devemos aceitar a perda em sentido integral, não apenas em sentido econômico.

 

Trata-se de uma proposta resolutiva alternativa às atuais pesquisas, onde ao invés de modelar os limites da razão, busca-se recuperar o potencial integral do homem. Recuperar o potencial integral do homem significa ter uma consciência exata, capaz de refletir quanto e como se é. Temos a reversibilidade entre o que se é (modo ôntico) e o que se pensa (modo psíquico), de onde se entende o termo Ontopsicologia. Segundo Meneghetti, o homem deve revisar, por meio de um processo racional, as premissas de que se utiliza para pensar, julgar, decidir. Deve compreender as próprias variáveis psicológicas, conscientes ou não, compreender os próprios determinismos e corrigir a própria consciência para que reflita de modo reversível sobre a sua posição existencial individual.

 

Conclusão

 

A crise do  homo economicus  pode ser reduzida à crise da racionalidade humana. Porém um comportamento não racional é uma fenomenologia, não é uma causa primeira. A causa primeira deve ser pesquisada na atividade psíquica. Ocorre que a economia procede – seja a clássica, seja a comportamental, seja a neuroeconomia – por meio de modelos estatísticos gerais e abstratos, centrados na determinação dos mercados e não na resolução das necessidades concretas do ser humano. A psicologia, por outro lado, possui instrumentos que permitem particularizar a análise, compreender o homem no seu ambiente, no seu “οικοζ” (óikos). O papel da psicologia é compreender a “lei interna” utilizada por aquele indivíduo para decidir, compreender o “νομοζ” (nómos) subjacente àquela decisão. Ela certamente nem substitui nem substituirá a economia, mas pode ser de grande ajuda para compreender a racionalidade da intuição, encontrando um critério intrínseco ao homem que possa restituir à economia o seu fundamento.

 

Érico Azevedo. Empresário, Pós-graduado em Ontopsicologia pela Universidade Estatal de São Petersburgo - Rússia, Pós-graduando em Filosofia pela PUC/SP, Professor
de pós-graduação do MBA Business Intuition junto à Faculdade Antonio Meneghetti.

compartilhar:
compartilhar


publicado em 13/08/2010