Sábado, 19 de Maio de 2012

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Entrevistas

Educação brasileira: o próximo obstáculo a ser enfrentado | Viviane Senna

Referência em trabalhos de responsabilidade social no Brasil e reconhecida internacionalmente como uma das lideranças de destaque para este milênio, ela coordena um dos mais importantes projetos sociais do país. Ao olhar a educação, Viviane Senna constata que não é a falta de recursos o principal problema do ensino público, mas a falta de gestão. Para ajudar a reverter essa situação, trabalha com a imagem do ídolo automobilístico a serviço de programas pedagógicos. O resultado é uma experiência exitosa: o Instituto Ayrton Senna já investiu mais de 200 milhões de reais em programas sociais, atingindo mais de 11 milhões de crianças e jovens e 550 mil educadores de 1,4 mil municípios. O que ela busca com isso? Um país que funcione para todos, pois quer que o Brasil dê certo.

             

 

Performance Líder – Como foi ter que, de uma hora para outra, se transformar em liderança pública? Você conhecia este seu lado?

 

Viviane Senna – Não, na verdade não esperava nem o que aconteceu na vida do Ayrton, para ele virar um piloto bem-sucedido, nem o acidente, nem essa situação de criar uma fundação que acabou ficando tão grande. Acho que foram coisas não planejadas, não imaginadas. Mas quando a gente decidiu criar uma fundação, a minha decisão foi categórica: se for fazer, vou fazer para ser extremamente eficiente, eficaz. Porque, se não for assim, não vale a pena. Vou continuar no meu consultório, fazendo o que sempre fiz, o que sempre pensei em fazer. Ficar velhinha, de bengalinha, andando, cuidando dos meus pacientes. Eu não mudaria se eu não fosse fazer alguma coisa que ajudasse de fato.

 

Como se sente mantendo viva a imagem do ídolo perante seus fãs?

 

O objetivo não foi este, mas o resultado acabou sendo. O objetivo era usar esta imagem a favor das crianças, a favor do país. Pensei assim: ele fez tão bem ao país enquanto vivo, por que não deixá-lo fazer o bem, mesmo não estando mais aqui? Era uma imagem forte, e eu decidi colocá-la a serviço do país. Não só a imagem em si, com tudo o que ela tem de força, de poder sobre as pessoas, mas o que ela representa em termos financeiros, também. Minha família e eu decidimos que nós daríamos 100% de tudo o que vinha dos royalties de imagem do Ayrton, do Senninha. Isso significou, nestes 17 anos, mais de 50 milhões de dólares. Houve também o aporte de empresas que nos procuraram para fazermos coisas juntos. Foram outros 30 milhões de dólares, mais ou menos. Então, esses dois fatores deram este resultado que temos hoje.

 

Como você compara o retorno do investimento feito pelo terceiro setor com o que é aplicado pelo setor público?

 

Depende de que terceiro setor você está falando. Nós temos terceiro setor que reúne desde coisas bem filantrópicas, com baixa eficiência, até coisas mais avançadas em termos de eficiência. Mas, de qualquer forma, eu acho que a comparação deveria ser entre mundo empresarial e setor público. O setor público tem o diferencial de ser universal, de ter fins universais. O setor privado tem a vantagem de ter a lógica do fazer eficientemente. A gente precisa reunir estes dois mundos: o da quantidade e o da qualidade. Esse é o grande desafio no Brasil, que ainda não colocou quantidade e qualidade na mesma equação.

 

Como justificar a má administração da educação pública brasileira?

 

A gente simplesmente constata na prática que a eficiência é muito baixa nas escolas brasileiras. A criança brasileira que está em escola pública aprende pouco. Ela levaria muito mais tempo para chegar ao mesmo nível da criança na Europa, nos países desenvolvidos, isso é um dado da ineficiência. Se você disser que é um problema da criança, teria que atribuir isso a todas as crianças brasileiras. Isso significaria dizer que a população infantil brasileira é mais “burra” que a população infantil mundial. Se fosse esse o resultado para uma ou duas crianças, até poderia ser. Numa visão individualizada e particularizada, você poderia atribuir à criança. O problema que esse resultado diz respeito a 80% das crianças da oitava série do país. Ou seja, são questões estruturais do modelo e práticas educacionais brasileiras. A verdade é que isso não se justifica, porque o IAS já atendeu mais de 10 milhões de crianças. No ano passado, atendemos 2,2 milhões. Elas continuam pobres, mas passam a aprender. Portanto, o problema não pode estar na criança. O problema está na forma como você administra o sistema, que é de uma maneira ineficiente.

 

Por que o sistema é ineficiente?

 

Porque não tem controle de resultado. Se a criança aprendeu ou não, nada acontece. Se 80% das crianças fracassam, não acontece nada com o gestor, com o diretor, com o professor, com o prefeito, com o secretário. Se isso acontecesse numa empresa, se 80% de sua produção fosse falha, você acha que o diretor da empresa continuaria na posição sem nenhum tipo de consequência?  No Brasil, a gente só tem 30% das crianças permanecendo até o fim. Portanto, a taxa de sobrevivência escolar no Brasil é só de 30%. Perguntei um dia para um médico: que doença seria capaz de matar 70% dos pacientes? Ele disse que atualmente não existe nenhuma epidemia, nenhuma doença no mundo que tenha esta letalidade. Mas na escola pública nós temos. A escola pública extermina 70% das crianças no trajeto. É como se o vírus da má qualidade do ensino atacasse e matasse 70% das crianças. Que emprego essas crianças que saem com três ou quatro anos de escolaridade vão arrumar? Que capacidade vão ter de tomar decisões? Que tipo de voto elas vão ser capazes de dar? Que tipo de produtividade vão ser capazes de ter?  No Rio de Janeiro, para uma pessoa ser coletora de lixo precisa de oito séries, precisa terminar o ensino fundamental. Essas crianças e pessoas nem para isso poderiam ser selecionadas. Então ocorre um verdadeiro exterminador de futuro, mesmo. A má qualidade do sistema educacional brasileiro é responsável pelo extermínio do futuro de crianças no Brasil. É preciso entender que o problema do sistema público educacional é a ineficiência.

 

Essa ineficiência tem ligação com o baixo salário do professor?

 

Isso é um mito. Existem estudos estatísticos mostrando que aumento de salário de professor não muda o rendimento do aluno. Então, se quiser aumentar salário de professor, pode, deve. Qualquer pessoa gosta de ganhar mais, qualquer um de nós adoraria receber um aumento. O problema é que se isso não estiver atrelado a um resultado, não vai melhorar a situação da educação. Não adianta simplesmente dar um salário, pois toda vez que isso foi feito as estatísticas mostraram que não melhorou o ensino. Existem casos reais em que o professor ganha mal. Mas em cima desses casos criou-se e multiplicou-se um mito. E é muito fácil para as pessoas achar que por ele ganhar mal então não produz, não funciona. Mas se você transportar isso para outro campo, a medicina, por exemplo, se um médico ganha mal, isso lhe dá o direito de deixar o paciente morrer? Você aceita isso? Não. Então, se aceitar isso no caso de um professor, a consequência será tão letal como deixar um paciente morrer no hospital. Se você não está satisfeito com o seu salário, procure outra profissão em que ganhe mais. E não deixe a criança infeliz por um problema que não diz respeito a ela.

 

Como a senhora vê a internet na educação?

 

Ela não é a solução, nem a resposta. Ela pode ser um elemento, junto de muitos outros, para conseguir ajudar nesse avanço. Acho que muitas pessoas colocam a internet como se fosse a salvação e a solução para todos os problemas. E não é, assim como nenhum dos aspectos sozinho é capaz de dar conta da tarefa de fazer a educação dar certo. Penso que, se bem usada, pode ajudar. Mas usada da forma como ela é atualmente não faz nenhuma diferença.

Vinte doutores e mestres fizeram um rastreamento mundial sobre o que impacta a educação. Biblioteca impacta? Formação de professor impacta? Titulação de professor impacta?  E, assim, diversos aspectos foram pesquisados no mundo inteiro. A gente analisou 600 estudos e escolheu os 160 melhores, os mais sofisticados e importantes, e são várias as conclusões. Uma delas é que a internet, ou o ensino pelo computador na escola, não tem impacto sobre a aprendizagem da criança.

 

A alma continua sendo o professor?

 

Sem dúvida, o professor, se ele estiver bem preparado e se souber gerir uma sala de aula. Porque ele também é ineficiente, tanto quanto o computador se mostrou ineficiente. O professor também não tem impacto sobre a aprendizagem da criança, se não souber a matéria que tem que dar, se não souber gerir a sala de aula, se não tiver foco em resultados, que é o que está acontecendo. Por que temos esses indicadores tão ruins no Brasil? Não é por falta de professores, os professores estão lá e dando aula. Por que não tem efeito?

 

O que motiva um professor a dar boas aulas?

 

O que motiva não é o salário. Trabalho com mais de meio milhão de professores. Eles trabalham ser ter nenhum tipo de ajuda financeira maior, ou o salário deles não aumenta. Ao longo destes 15 anos, foram mais de meio milhão de professores que agente trabalhou. O que mudou o desempenho deles, que estava estacionado em 20 ou 30% de resultado e passou para 90% de resultado? Não foi salário, foi motivação, preparo, capacitação técnica para acompanhamento gerencial, suporte gerencial. Ou seja, tudo o que dá condições para o professor funcionar na sala de aula: formação, conhecimento, aprendizagem, gestão. Um conjunto de fatores que são os necessários pra ele funcionar. E é isso que o motiva.

 

E o que motiva a Viviane Senna a fazer o trabalho que faz?

 

É exatamente ver essas crianças que não davam certo, dando certo. Tem todo o potencial para dar certo desperdiçado e de repente elas passam a dar certo como qualquer um de nós.

 

Como foi avaliado o desempenho do projeto Acelera Brasil?

 

Pegamos mil municípios entre os 1,4 mil em que o Instituto trabalha e fizemos a avaliação de desempenho frente a outros mil semelhantes em nível socioeconômico e região. A diferença de resultados é muito grande. Os que receberam os trabalhos do Acelera e de outros projetos andaram duas, três, cinco vezes mais rápido e, em alguns casos, oito vezes. Fizeram oito anos em um. Por quê? Porque você passa a dar condições para que eles funcionem de maneira eficiente. 

 

Texto: Ceura Fernandes 

 

Imagem: Juan Guerra/ Instituto Airton Senna

Entrevista publicada na 8 ed. da Performance Líder - I semestre 2012

 



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